UMA CLASSIFICAÇÃO MARXISTA

A

As classificações ocidentais, impregnadas de uma teoria da neutralidade de fundo lógico-cognitiva, escondem na própria vitrine de suas falácias a verdade ideológica que as fundamenta. 

O uso intensivo da hegemonia da categorização de origem ocidental sustenta, ainda, o apagamento das mais variadas potencialidades emancipatórias via classificação. A luta por uma classificação ranganathaniana, sob uma lógica que sugere a velha e fabulosa trama aristotélica, demonstra que as aparências, aqui, por sua vez, ocultam a culturalidade expressa de cada gesto ordenador de coisas e de palavras.

Robert Estivals e a tradição francesa reencontram nos diálogos com o Leste uma, das tantas margens de classificação de fundo dialético, orientadas a partir da perspectiva marxiana. 

Não diferentemente da problemática em Ranganathan, à primeira vista apenas uma breve mudança sensível pode ser vista: a classe primeira, notacionada como A, responde pela nomenclatura Marxismo-leninismo. A seguir, encontramos ditas disciplinas "comuns" ao império epistêmico do Ocidente, como ciências naturais, física e matemática, química, ciências da terra, até chegarmos à derradeira literatura de fundo enciclopédico. 

Mera realocação de estruturas semânticas dentro de um esquema classificatório? Simples escolha de distribuição de classes?

A primeiridade concedida aqui ao enfoque marxista-leninista é a fundamentação do enigma político de toda classificação: sua cor na luta social. Trata-se, pois, de uma afirmação não apenas da fonte de um pensamento, mas de toda a estrutura de um projeto de justiça social.

O que se desdobra, pois, como aquilo que na tradição brâmame ranganathaniana se orienta após a primeira lei da Biblioteconomia, representa no sentido do artefato classificatório russo a marca de uma tradução da lógica ocidental pela dialética: a Física não é a Física, mas uma teoria marxista-leninista da natureza, um modo de pensar a transformação social a partir, por exemplo, da mecânica e da astronomia. 

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